O que tinha o homem-poeta
na cavidade dos olhos?
Um visgo sem pouso?
Sapos brotando das asas gritando lagartos?
Valha-me Deus! Que dor profunda
de cheiros e sabores
das frutas que sequer conheço.
Ví dois pântanos.
Era tanta miudeza de coração de formiga,
de vaga-lume em chamas,
que me fez parar e ficar quieto o mundo.
Uma quietude buliçosa de ventre caído
e mil vezes elucidado de tanto parir.
Socorrei-me olhar de lótus,
de vitória amazônica e açaí cozido.
Dá-me fibra e caroço para que eu possa germinar.
Olhos de brisa-garça que pousam em mim,
sem saber de mim,
extrai o árido da boca das palavras que digo.
Põe nelas o estrume de vaca sagrada
e torna-me um inseto feliz, farto,
zumbindo Mozart, na hora de voar.
À Manoel de Barros
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