
– Eu vi montanhas, Caio. Vi nuvens e anjos.
Eram uns prados verdes, pedras altas.
Tocavam Deus aquelas durezas agudas, rugosas.
• E os anjos?
– Eu vi uns rasteiros cobrindo as pedras.
E eram asas de anjos.
• Anjos caídos?
– Não, anjos libertos. Homens com aquilo de serem
mortais.
• Então, morreram os anjos?
– Disseram que era assim mesmo, que os anjos vivem
um tempo com asas e tudo, são imortais.
Prendem-se ao céu para purificarem os pecados
e apurarem os desejos. Aos poucos perdem a leveza
e as asas, não fazem mais sentido. Caem na terra
e viram musgo de montanha, crisálidas rompidas
nos pastos. Depois viram homens com aquilo
de serem mortais e de terem, simultaneamente,
um escuro e uma luz.
• Purificaram os desejos e apuraram os pecados...
Isso tira a leveza dos anjos?
– Não, isso dá peso e corpo, carne e sangue.
Mas purifica-se os pecados e não os desejos.
E os desejos também precisam ser renovados
ou ficam velhos e perdem as asas.
• Não tem isso de ser mortal?
– O desejo?
• Não, o pecado!
– É imortal e rasteiro. Cobre as montanhas
e alimenta o desejo. Ah! Dá nome à lápide
e impede que o mar avance.
• E os desejos transformam-se, assim como
os pecados dos anjos sem asas?
– Os homens com aquilo de serem luz e escuro queimam
os olhos e as nuvens aquecem os pecados.
• E aquilo de ter um duro e um macio?
– É o mesmo da luz e do escuro. A luz fura o escuro.
O duro fere o macio.
• Anjos têm grutas?
– Anjos ou os homens com aquilo de terem medo
da morte? As grutas dos anjos, quando aparecem,
são vistas a noite sobrepostas à escuridão.
Elas rugem com o vento passando.
Aqui já perderam as asas e trincam os dentes.
Enroscam as pernas no vazio.
• Têm medo da morte?
– Depois que as grutas se acendem eles passam
a temer a vida pois é a vida quem acaba com a morte.
• Mesmo ela sendo reluzente? E morte se acaba?
– Então não vês a montanha? Nem a nuvem?
Nem o anjo com aquilo de existir sofrendo
porque a vida acabou com a morte da crisálida
nos prados? Ninguém morre - vira aquilo
que seiva a terra. Nós vivemos eternamente
porque nunca conseguimos morrer de verdade.
• Você viu a morte...
– Vi o amor dela. É terrível. O amor tem dentes
agudíssimos.
• Morrer é ser mordido pelo amor de Deus?
– É ser mordido sim.
• E dói?
– O amor dói. A vida dói demais.
• Agora eu vejo aquilo em mim
de não saber morrer.
– Perdestes a leveza. Olha tuas asas já forrando
a montanha... Já é pôr do sol. Volto para casa.
• Vem comigo?
– Logo tua gruta aparecerá à boca da noite.
• Vem, quero trançar minhas pernas.
– Rangerás os dentes.
• Ficarei esperando alguma estrela pousar
lá dentro e iluminar o escuro.
– Eu explodirei dentro de ti.
• És a morte? O sopro que dói?
Aquilo de não querer saber?
– Depois passa. Ficará um grosso na singeleza
da tua carne.
• E na tua?
– A tua pele grudada. Talvez uns rasteiros
me cubram o peito.
• É onde te toco?
– É no ventre. Já é noite.
Olha a gruta! Olha a boca! Olha o centro!
Fecha os olhos....
Para Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu
santos mártires, moço! q coisa fantástica! vc poderia criar mais textos desse tipo, montar uma peça teatral e chamar o gero p encená-la. q tal? seu texto é divino, leo! uma bênção.
ResponderExcluirobrigada! beijo, sel
Sel, um texto meu lido por Gero já seria um luxo! A peça é um sonho maior. Falta muito ainda. Eu gosto muito desse texto. Agradeço o seu estímulo. Beijos.
ResponderExcluir