06 abril 2011

Registro XII




















– Eu vi montanhas, Caio. Vi nuvens e anjos.
   Eram uns prados verdes, pedras altas.
   Tocavam Deus aquelas durezas agudas, rugosas.

         •   E os anjos?

 – Eu vi uns rasteiros cobrindo as pedras.
   E eram asas de anjos.

         •   Anjos caídos?
– Não, anjos libertos. Homens com aquilo de serem
   mortais.

            Então, morreram os anjos?

– Disseram que era assim mesmo, que os anjos vivem
   um tempo com asas e tudo, são imortais.
   Prendem-se ao céu para purificarem os pecados
   e apurarem os desejos. Aos poucos perdem a leveza
   e as asas, não fazem mais sentido. Caem na terra
   e viram musgo de montanha, crisálidas rompidas
   nos pastos. Depois viram homens com aquilo
   de serem mortais e de terem, simultaneamente,
   um escuro e uma luz.

            Purificaram os desejos e apuraram os pecados... 
             Isso tira a leveza dos anjos?

– Não, isso dá peso e corpo, carne e sangue.
   Mas purifica-se os pecados e não os desejos.
   E os desejos também precisam ser renovados
   ou ficam velhos e perdem as asas.

             Não tem isso de ser mortal? 

– O desejo?

            Não, o pecado!

– É imortal e rasteiro. Cobre as montanhas
   e alimenta o desejo. Ah! Dá nome à lápide
   e impede que o mar avance.

            E os desejos transformam-se, assim como 
             os pecados dos anjos sem asas?

– Os homens com aquilo de serem luz e escuro queimam
   os olhos e as nuvens aquecem os pecados.

           E aquilo de ter um duro e um macio?

– É o mesmo da luz e do escuro. A luz fura o escuro.
   O duro fere o macio.

            Anjos têm grutas?

– Anjos ou os homens com aquilo de terem medo
   da morte? As grutas dos anjos, quando aparecem,
   são vistas a noite sobrepostas à escuridão.
   Elas rugem com o vento passando.
   Aqui já perderam as asas e trincam os dentes.
   Enroscam as pernas no vazio.

            Têm medo da morte?

– Depois que as grutas se acendem eles passam
   a temer a vida pois é a vida quem acaba com a morte.

            Mesmo ela sendo reluzente? E morte se acaba?

– Então não vês a montanha? Nem a nuvem?
   Nem o anjo com aquilo de existir sofrendo
   porque a vida acabou com a morte da crisálida
   nos prados? Ninguém morre - vira aquilo
   que seiva a terra. Nós vivemos eternamente
   porque nunca conseguimos morrer de verdade.

            Você viu a morte...

– Vi o amor dela. É terrível. O amor tem dentes
   agudíssimos.

            Morrer é ser mordido pelo amor de Deus?

– É ser mordido sim.

            E dói?

– O amor dói. A vida dói demais.

            Agora eu vejo aquilo em mim
             de não saber morrer.

– Perdestes a leveza. Olha tuas asas já forrando
   a montanha... Já é pôr do sol. Volto para casa.

            Vem comigo?

– Logo tua gruta aparecerá à boca da noite.

            Vem, quero trançar minhas pernas.

– Rangerás os dentes.

            Ficarei esperando alguma estrela pousar  
             lá dentro e iluminar o escuro.

– Eu explodirei dentro de ti.

            És a morte? O sopro que dói?           
             Aquilo de não querer saber?

– Depois passa. Ficará um grosso na singeleza
   da tua carne.

          E na tua?

– A tua pele grudada. Talvez uns rasteiros
   me cubram o peito.

        •   É onde te toco?

– É no ventre. Já é noite.
   Olha a gruta! Olha a boca! Olha o centro!
   Fecha os olhos....


Para Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu

2 comentários:

  1. santos mártires, moço! q coisa fantástica! vc poderia criar mais textos desse tipo, montar uma peça teatral e chamar o gero p encená-la. q tal? seu texto é divino, leo! uma bênção.
    obrigada! beijo, sel

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  2. Sel, um texto meu lido por Gero já seria um luxo! A peça é um sonho maior. Falta muito ainda. Eu gosto muito desse texto. Agradeço o seu estímulo. Beijos.

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