22 abril 2011

Registro XX

Minha bisavó enxugou as mãos,
largou o pano ao lado da panela
e foi sentar.
Ficou bem quietinha na cadeira,
secando, secando.
Teve fome, não comeu.
Teve sede, resistiu,
prostrou-se na vida.
As rugas, a cabeça toda branquinha,
seu vestido de fundo preto
e flores miúdas,
a dentadura com um dente azul
contornado de ouro,
tudo na fogueira da dor universal,
sem sopro.
Ela toda parou para lamentar
a cruz e o homem nela.
Assim eu aprendi:
sexta-feira da paixão
é dia de ser nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário