19 maio 2011

Registro XXX































 
O que seria o prado habitado por Hilda?
Deus em fatias, verbos porosos.

    • Não vês, não é? Os dias líquidos, os que queimam,
      fazendo a tela de minhas noites?


No prado Hilda responde:
    •  Porque tens amor além de uma certa medida!

O prado chora de Deus. É Bruno que anda,
de nuvem em nuvem colhendo nenúfar.
No prado Hilda regurgita: 

    •  Amor, porque o tens se o odeias além do que o limita?

- Adélia solta o passarinho, pois eu, Bruno, construo
  a paisagem perfeita com minhas levezas.

E no prado Hilda deita:
    • Amém pelos podres, pelos nacos que me entopem.
      Estou viva de doer! Ai Bruno! Traz o nenúfar

      nos dentes! Ai Adélia, que fogo!
      Traz o nenúfar no ventre! Que é como a boca branca,
      aberta, sugando a teta do mundo.

- Bruno, vai buscar saliva, pois Hilda está secando!

E no prado a noite desce. Adélia canta um hino
sobre a urdidura da vida. Bruno retira os olhos
e o nenúfar, numa compaixão só.

- Hilda, toma o sal dos meus olhos, sou eu Bruno,
o que te recebeu no amor escuro e grosso.

    • Quero o verbo poroso, Bruno!

- Sou eu, o que te recebeu no amor escuro e grosso.


    • Onde está a faca?

- O que queres arrancar?

    • Eu mesma, da pedra-musgo. Quero raspar a pedra
      com aponta dos dedos.


- E a faca?

    • É para fazer o sinal da cruz.

- Trás a vela Adélia, Hilda fechou os olhos.

- É por amor que acalentas?

- Não. É por nada, é por viver. É porque sou.

No prado Hilda é cinzas, sopra o hálito de Deus.
- Vê Adélia, o passarinho!
- Vê Bruno, o grosso!
- Olha Hilda...

No prado, brotou o nenúfar.

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