03 maio 2011

Registro XXIII

Uma manhã de chuva
lava o jardim,
a poeira dos telhados,
os olhos de sono,
o ar ressentido.
A casa se enche
com o cheiro de terra,
jasmim e lembranças.

Duas manhãs de chuva
arqueiam as sobrancelhas,
envergam as paredes
e o que há de mofo
nas coisas de espera,
no tempo dos carros,
na vida esburacada,
o sangue faz-se lama.

Três manhãs de chuva
e eu oro pelo reboco,
a lágrima de cal frágil
e peço: segura-me
antes da casa ruir.
Eis que ao terceiro dia
de lamúrias celestes
eu me pego pensando:
Deus está triste e também chora.

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